Frankenstein e o conceito de humano

Mary Shelley

Em 1818 a jovem escritora Mary Wollstonecraft Shelley publicava anonimamente seu primeiro e mais conhecido livro: Frankenstein, ou O Prometeu Moderno. A história havia sido concebida quando Mary tinha apenas 18 anos, em um “concurso” de histórias de terror proposto pelo Lorde Byron e John Polidori para passarem o tempo. Os três, junto ao marido de Mary, o poeta Percy Shelley, e a “namorada” de Byron, Claire Clairmont, estavam passando alguns dias em um casarão chamado Villa Diodati, em Genebra. Como o tempo chuvoso estava pouco permissivo para turismo, eles decidiram escrever para passar o tempo.

Byron, Shelley e Claire não produziram nada de notável, e John Polidori escreveu “O Vampiro”, uma das primeiras histórias da literatura britânica sobre o tema. Mas a história de Mary Shelley é provavelmente a mais icônica narrativa nascida naquele verão na Suíça, e se tornou uma das mais marcantes narrativas da humanidade.

 

Quem diria que um local tão bonito seria lar de um encontro tão sombrio?

Quem diria que um local tão bonito seria lar de um encontro tão sombrio?

A história de Mary surgiu de um pesadelo, tratava de um cientista Suíço que é encontrado por um navio em expedição exploradora pelo Pólo Norte, à beira da morte e de um colapso nervoso. O cientista percebe que não irá sobreviver, e começa a contar ao capitão do navio sua história, de sua vida infantil de recluso e apaixonado por leituras de ciência e alquimia até aquele momento desesperançoso. Principalmente, o Doutor Victor Frankenstein deseja compartilhar com alguém a terrível história que o levou até o Ártico e à morte: A história de como ele criou vida em laboratório, e foi punido pela própria culpa e covardia.

Apesar de a leitura não ser das mais fluidas para os nossos olhos de Século XXI, eu garanto que Frankenstein é uma leitura que recompensa o esforço, e torna-se bem agradável quando você se acostuma ao estilo característico do romance gótico. Se você ainda não leu Frankenstein, eu aconselho a não seguir na leitura desse post, pois contém spoilers a respeito do enredo do livro.

E agora vamos falar do que, para mim, é o ponto de maior horror de Frankenstein: a parte “realista”.

Certamente o romance chamou atenção à época por um conjunto de ideias pavorosas que ainda são impressionantes hoje em dia. A vida artificial e grotesca do monstro. Os questionamentos profundos a respeito de como se comportaria uma forma de vida criada por mãos humanas, uma vez que a vida é sempre imprevisível e potencialmente perigosa. O desespero do doutor Frankenstein ao renegar seu filho-monstro e sentir-se responsável por deixar solta no mundo uma aberração potencialmente perigosa. E, por fim, a ideia de que nós não somos tão especiais por termos a fagulha da vida e da consciência. Tudo isso apela a medos profundos, pois viola a ideia de que a vida é um processo que somente pode ocorrer de maneira espontânea no Universo, violando inclusive ideias religiosas ainda muito comuns (que dirá à época em que foi lançado).

Mas não é sobre esse horror que viemos tratar hoje. Por mais que certos avanços na biomedicina tornem essa discussão interessante e atual, eu não chego a morrer de medo da maioria deles.

Mas existe uma parte do livro que ainda me dá medo.

Depois de fugir do laboratório de Frankenstein na Universidade de Ingolstadt, Alemanha, a criatura começa a correr desesperada pelos bosques e vilas próximas. Em um momento futuro, ele aprende a falar e a ler, e é da boca da própria criatura que ouvimos a história de sua peregrinação e do amadurecimento de sua consciência. Apesar de não ser feito das partes de homens mortos como o cinema nos fez acreditar, a criatura tinha uma composição antinatural, o que resultou em uma aparência horrenda, com a pele fina e seca que “mal esconde o funcionamento dos músculos e artérias que encobre”. Portanto, é de se compreender que as pessoas que o encontraram no caminho se assustassem e fossem hostis com ele. Durante a narrativa do monstro, somos convidados por Mary Shelley a empatizar com ele, a entender o mundo a partir de seu ponto de vista. E é aí que se encontra o terror.

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O monstro triste

Não apenas descobrimos, na narrativa do monstro, o quão sensível pode ser a pessoa por trás daquele corpo artificial. Descobrimos também a brutalidade humana frente ao que não conhecemos ou consideramos nossos semelhantes. Ele conta sobre uma pobre família de camponeses por quem se afeiçoa, após observar sua vida através de uma rachadura na parede, e fala daquelas pessoas com uma ternura que não aparece em nenhum outro personagem da história. Conta sobre como os ajuda secretamente, fazendo a colheita e protegendo-os enquanto eles dormem. E, então, conta sobre como, ao ser descoberto, é tratado com o mesmo medo e hostilidade com o qual outras pessoas já o haviam tratado.

O monstro não esconde em nenhum momento sua empatia por aqueles que o tratam mal, pois entende que sua aparência é assustadora mesmo para si próprio. Ainda assim, é impossível ler seu relato sem se deixar entristecer pela descrição da vida de solidão, medo e rejeição reservada para uma criatura tão sensível. O monstro é o personagem mais interessante do livro, na minha opinião, exatamente por ser mais multifacetado e contar uma história impressionante sobre falta de empatia.

Saímos então da página dos livros, e voltamos a caminhar no mundo real. E então vemos que, em diversos momentos em nossas sociedades, vivemos rodeados de “monstros de Frankenstein”, por quem a empatia é bloqueada em algum grau. Em diferentes esferas, diferentes realidades sociais, não é incomum ver pessoas que são alvo de uma desumanização ainda mais brutal do que a do monstro de Frankenstein. São elas moradoras de rua, minorias políticas, negros em uma sociedade racista, mulheres em uma sociedade machista. É perturbador ver o quanto o mesmo bloqueio que Mary Shelley parecia condenar na ficção, mesmo direcionado a uma criatura horrenda, ainda nos envolve nos dias atuais, direcionado a seres humanos dignos de respeito e dignidade. Tudo simplesmente em nome da aversão ao “outro”, ao que nos é diferente, estranho ou incompreensível.

A desumanização é o processo brutal de ignorar o ser humano que existe no outro, substituí-lo por uma caricatura grotesca. É uma alquimia muito mais assustadora do que a que se praticava às escondidas no laboratório do solitário Victor Frankenstein, e acontece a céu aberto todos os dias. É a perda de uma das melhores características humanas, que é o senso de comunidade, de cooperação entre semelhantes (por mais diferentes que o sejam).

Em Frankenstein, o monstro real é o doutor que não teve a coragem de assumir seu filho e garantir à criatura de seus experimentos uma existência minimamente feliz e digna. No mundo real, os monstros são aqueles que se deixam dessensibilizar, que encaram os diferentes como inferiores dignos de agressividade ou descaso.

Destes monstros eu tenho medo.