Frankenstein e o conceito de humano

Mary Shelley

Em 1818 a jovem escritora Mary Wollstonecraft Shelley publicava anonimamente seu primeiro e mais conhecido livro: Frankenstein, ou O Prometeu Moderno. A história havia sido concebida quando Mary tinha apenas 18 anos, em um “concurso” de histórias de terror proposto pelo Lorde Byron e John Polidori para passarem o tempo. Os três, junto ao marido de Mary, o poeta Percy Shelley, e a “namorada” de Byron, Claire Clairmont, estavam passando alguns dias em um casarão chamado Villa Diodati, em Genebra. Como o tempo chuvoso estava pouco permissivo para turismo, eles decidiram escrever para passar o tempo.

Byron, Shelley e Claire não produziram nada de notável, e John Polidori escreveu “O Vampiro”, uma das primeiras histórias da literatura britânica sobre o tema. Mas a história de Mary Shelley é provavelmente a mais icônica narrativa nascida naquele verão na Suíça, e se tornou uma das mais marcantes narrativas da humanidade.

 

Quem diria que um local tão bonito seria lar de um encontro tão sombrio?

Quem diria que um local tão bonito seria lar de um encontro tão sombrio?

A história de Mary surgiu de um pesadelo, tratava de um cientista Suíço que é encontrado por um navio em expedição exploradora pelo Pólo Norte, à beira da morte e de um colapso nervoso. O cientista percebe que não irá sobreviver, e começa a contar ao capitão do navio sua história, de sua vida infantil de recluso e apaixonado por leituras de ciência e alquimia até aquele momento desesperançoso. Principalmente, o Doutor Victor Frankenstein deseja compartilhar com alguém a terrível história que o levou até o Ártico e à morte: A história de como ele criou vida em laboratório, e foi punido pela própria culpa e covardia.

Apesar de a leitura não ser das mais fluidas para os nossos olhos de Século XXI, eu garanto que Frankenstein é uma leitura que recompensa o esforço, e torna-se bem agradável quando você se acostuma ao estilo característico do romance gótico. Se você ainda não leu Frankenstein, eu aconselho a não seguir na leitura desse post, pois contém spoilers a respeito do enredo do livro.

E agora vamos falar do que, para mim, é o ponto de maior horror de Frankenstein: a parte “realista”.

Certamente o romance chamou atenção à época por um conjunto de ideias pavorosas que ainda são impressionantes hoje em dia. A vida artificial e grotesca do monstro. Os questionamentos profundos a respeito de como se comportaria uma forma de vida criada por mãos humanas, uma vez que a vida é sempre imprevisível e potencialmente perigosa. O desespero do doutor Frankenstein ao renegar seu filho-monstro e sentir-se responsável por deixar solta no mundo uma aberração potencialmente perigosa. E, por fim, a ideia de que nós não somos tão especiais por termos a fagulha da vida e da consciência. Tudo isso apela a medos profundos, pois viola a ideia de que a vida é um processo que somente pode ocorrer de maneira espontânea no Universo, violando inclusive ideias religiosas ainda muito comuns (que dirá à época em que foi lançado).

Mas não é sobre esse horror que viemos tratar hoje. Por mais que certos avanços na biomedicina tornem essa discussão interessante e atual, eu não chego a morrer de medo da maioria deles.

Mas existe uma parte do livro que ainda me dá medo.

Depois de fugir do laboratório de Frankenstein na Universidade de Ingolstadt, Alemanha, a criatura começa a correr desesperada pelos bosques e vilas próximas. Em um momento futuro, ele aprende a falar e a ler, e é da boca da própria criatura que ouvimos a história de sua peregrinação e do amadurecimento de sua consciência. Apesar de não ser feito das partes de homens mortos como o cinema nos fez acreditar, a criatura tinha uma composição antinatural, o que resultou em uma aparência horrenda, com a pele fina e seca que “mal esconde o funcionamento dos músculos e artérias que encobre”. Portanto, é de se compreender que as pessoas que o encontraram no caminho se assustassem e fossem hostis com ele. Durante a narrativa do monstro, somos convidados por Mary Shelley a empatizar com ele, a entender o mundo a partir de seu ponto de vista. E é aí que se encontra o terror.

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O monstro triste

Não apenas descobrimos, na narrativa do monstro, o quão sensível pode ser a pessoa por trás daquele corpo artificial. Descobrimos também a brutalidade humana frente ao que não conhecemos ou consideramos nossos semelhantes. Ele conta sobre uma pobre família de camponeses por quem se afeiçoa, após observar sua vida através de uma rachadura na parede, e fala daquelas pessoas com uma ternura que não aparece em nenhum outro personagem da história. Conta sobre como os ajuda secretamente, fazendo a colheita e protegendo-os enquanto eles dormem. E, então, conta sobre como, ao ser descoberto, é tratado com o mesmo medo e hostilidade com o qual outras pessoas já o haviam tratado.

O monstro não esconde em nenhum momento sua empatia por aqueles que o tratam mal, pois entende que sua aparência é assustadora mesmo para si próprio. Ainda assim, é impossível ler seu relato sem se deixar entristecer pela descrição da vida de solidão, medo e rejeição reservada para uma criatura tão sensível. O monstro é o personagem mais interessante do livro, na minha opinião, exatamente por ser mais multifacetado e contar uma história impressionante sobre falta de empatia.

Saímos então da página dos livros, e voltamos a caminhar no mundo real. E então vemos que, em diversos momentos em nossas sociedades, vivemos rodeados de “monstros de Frankenstein”, por quem a empatia é bloqueada em algum grau. Em diferentes esferas, diferentes realidades sociais, não é incomum ver pessoas que são alvo de uma desumanização ainda mais brutal do que a do monstro de Frankenstein. São elas moradoras de rua, minorias políticas, negros em uma sociedade racista, mulheres em uma sociedade machista. É perturbador ver o quanto o mesmo bloqueio que Mary Shelley parecia condenar na ficção, mesmo direcionado a uma criatura horrenda, ainda nos envolve nos dias atuais, direcionado a seres humanos dignos de respeito e dignidade. Tudo simplesmente em nome da aversão ao “outro”, ao que nos é diferente, estranho ou incompreensível.

A desumanização é o processo brutal de ignorar o ser humano que existe no outro, substituí-lo por uma caricatura grotesca. É uma alquimia muito mais assustadora do que a que se praticava às escondidas no laboratório do solitário Victor Frankenstein, e acontece a céu aberto todos os dias. É a perda de uma das melhores características humanas, que é o senso de comunidade, de cooperação entre semelhantes (por mais diferentes que o sejam).

Em Frankenstein, o monstro real é o doutor que não teve a coragem de assumir seu filho e garantir à criatura de seus experimentos uma existência minimamente feliz e digna. No mundo real, os monstros são aqueles que se deixam dessensibilizar, que encaram os diferentes como inferiores dignos de agressividade ou descaso.

Destes monstros eu tenho medo.

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“Pornography”: O Sheol de uma banda

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“Não importa que todos morramos”

Com essas palavras Robert Smith abre um dos mais densos e assustadores álbuns do The Cure. Pornography, lançado em 1982, traz uma banda em seu auge, vivenciando o inferno pessoal de cada um de seus membros, cada um à beira de sua própria dissolução, ou de iniciar uma rodada de loucura e violência direcionada aos outros.

Musicalmente, temos um Cure não necessariamente mais maduro do que nos anteriores Seventeen Seconds (1980) e Faith (1981), mas certamente um Cure mais perturbado. As atmosferas de sintetizadores e guitarra tentam te sufocar ativamente, enquanto a bateria ritmada e distorcida forma uma barreira sólida junto com o contrabaixo, e te impede de sair. Enquanto isso, Robert Smith canta o seu réquiem em seu melhor estilo de Crooner-Necromante, lamentoso e agressivo, com linhas fantásticas como “Desenhar auréolas na lua dá às minhas mãos a forma de anjos” ou “Você me virou as costas em cicatriz, espiralada como um embrião”.

Pornography prende e agride ao mesmo tempo. Mas por quê?

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Uma banda começa a se firmar no cenário post-punk e ganhar popularidade por suas letras de leve teor surreal e melodias originais e ricas. Pessoas começam a achá-los estranhos, se conectar com a imagem sombria que criaram, destoando do cenário new-wave colorido que começava a surgir. A banda lança álbuns progressivamente mais sombrios, se aprofundando em temas existenciais, depressão, conflito e referências a literatura. Eles criam um mundo e desenham sobre si mesmos os habitantes desse mundo.

Então eles entram no estúdio para gravar o quarto álbum, e o mundo que eles construíram os aguarda lá dentro.

Os conflitos da banda se somaram, e, convergindo com isso, a depressão do vocalista e líder Robert Smith chega a seu auge. Ele se torna errático e introspectivo, quase suicida. Percebe que esse álbum pode ser a forma de canalizar toda a autodestruição e sufocamento que está sentindo, uma forma de cirurgia psicológica. E é então que o LSD e a clausura entram em jogo.

Fico imaginando como não seria fantástica uma “Graphic-Novel documentário” escrita por Neil Gaiman e ilustrada por Dave McKean, que narrasse uma versão ficcionalizada do processo de gravação do álbum. Imaginar um Cure ainda mais obscuro, fazendo longas sessões de ácido e morando no estúdio sem jamais sair, é automaticamente imaginar algo no estilo que apenas Gaiman-McKean poderiam ilustrar melhor do que a realidade. Ao final das gravações, havia uma montanha de embalagens vazias em um dos cantos dos RAK Studios. Simon Gallup, o baixista saiu da banda, e o Cure quase acabou.

Por sorte, eles se mantiveram de pé, lançando uns álbuns estranhos e pops, mas voltaram às atmosferas e às composições elaboradas com pérolas como Disintegration e Bloodflowers. Mas o pesadelo que o Pornography representa na história do grupo é de fato algo que nunca havia sido atingido antes pelo The Cure. E nem se repetiu depois.

Você confere o Pornography no link abaixo. Cuidado, porém!

A cidade de Silent Hill: Os três níveis do medo

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Se a cidade de Twin Peaks, Washington, pode ser considerada uma espécie de “personagem silencioso” na série homônima, a cidade ficcional de Silent Hill, Maine… Bem… Silent Hill é um personagem tão “barulhento” que a sensação dos jogos é a de que você é sempre um coadjuvante.

Twin Peaks é encantadora, sombria e possui uma aura própria, é verdade… Mas Silent Hill é definitivamente a protagonista nos jogos da aclamada série da Konami. Existem inúmeros textos na internet falando sobre os jogos, e eu sinceramente aconselho os três primeiros títulos da série como bons exemplos do videogame como arte. O post de hoje, porém, é sobre a cidade em si!

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Na primeira aparição da cidade, em SH1 (1999), ela já estava abandonada e fantasmagórica, embora Harry Mason ainda pensasse na cidade como a bela e turística cidadela próxima ao Lago Toluca. Nesse momento, a “influência” ou “significância espiritual” da cidade já estava corrompida, transformada no pesadelo que nos acostumamos a explorar nos jogos ou ver no cinema (aliás, a adaptação para o cinema é um pesadelo em si mesma :/ ). Mas muito antes de Harry Mason ou mesmo da chegada dos colonizadores europeus, os indígenas já conheciam a ocorrência de fenômenos místicos e espirituais próximos ao Lago Toluca, e chamavam o lugar de “local dos espíritos silenciados”.

A “influência” ou “presença” da região se manifestaria, portanto, dando voz aos espíritos silenciados que acompanhavam a pessoa, o que eu interpreto como uma possível alegoria ao subconsciente. O resto da história de Silent Hill parece caminhar lado a lado com minha interpretação. Quando começou a colonização das cercanias do Toluca (com a expulsão forçada dos indígenas da região), esse desequilíbrio se manifestou na forma de uma grande epidemia, que dizimou boa parte dos colonizadores, quase um século depois da tomada do “local dos espíritos silenciados”. Foi apenas no século XIX, após mais de cem anos de abandono, que a colonização e estabelecimento da cidade tornaram a suceder, com o estabelecimento de uma colônia penal.

Silent Hill ganhou seu nome a essa época. Outras aquisições foram o Hospital Brookhaven (a.k.a.: aquele maldito hospital do segundo jogo!) e uma prisão. Também nesse século descobriram as jazidas subterrâneas de carvão, e o interesse na cidade fez com que ela crescesse demográfica e estruturalmente.

No final do século, pessoas começaram a desaparecer.

No século XX finalmente os eventos importantes para que a interação entre a cidade e o psicológico dos moradores se corrompesse de vez se desenrolaram, com o crescimento da Ordem (grupo religioso fundamentalista que conduzia uns rituais super bizarros) e o nascimento e história de Alessa Gillespie. A essa altura, Silent Hill já tinha ganho seu status como uma cidade turística bonita e tranquila, um lugar para onde ir com a família no final de semana para se deixar encantar pela cidade. Encantamento, alright!

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Bem, a história de Silent Hill é muito grande e complexa para esse post. As coisas começaram a ficar sérias depois que o pessoal da “Ordem” (liderados pela própria mãe de Alessa) tentou usar a menina para trazer de volta o “deus” deles, imolando seu corpo em um ritual e a mantendo viva sob tortura, alucinação e magia negra durante a gestação. Durante esses anos, a grande treva se abateu sobre a cidade, e é a partir daí que se desenrolam os jogos (alguns deles se passando em momentos anteriores do histórico da cidade). Silent Hill se tornou realmente abandonada, e parte das “sombras” da cidade chegam a se manifestar em locais próximos, sinal de que as coisas, o que quer que sejam, estão ganhando força.

Seja nos jogos, filmes (argh!), quadrinhos ou livros, Silent Hill normalmente se manifesta em três níveis, e é sobre isso que venho falar. O primeiro nível é o Mundo Real, mais explorado no primeiro filme e no segundo jogo (a menininha, Laura, parece estar rumando pelo mundo real). Sem gente, porque a cidade ainda é uma cidade-fantasma, mas sem monstros, aparições ou algo assim. Uma vez que a cidade atrai pessoas que têm “sombras no coração”, a maioria das pessoas não chega a conhecer a Silent Hill real, uma vez que ela se manifesta apenas para pessoas que não foram “chamadas” pela cidade. Talvez a “Silent Hill Real” funcione apenas para mostrar que há diferença na interpretação do medo, e essa diferença é subjetiva e pessoal. Uma cidade vazia para alguém sem “trevas no coração” não é muito mais do que uma cidade vazia. Pois bem…

O “Fog World”, ou “Mundo da Neblina” é a parte que mais exploramos em Silent Hill. A cidade ainda parece uma cidade abandonada, mas há a neblina a dificultar a visibilidade e aqui já ocorrem criaturas e manifestações. No geral, a Silent Hill da Neblina é pouco variável entre diferentes visitantes, aparecendo em diversas iterações nos jogos sem grande diferença. As criaturas são um composto dos medos daqueles que visitam a cidade, juntados às histórias que já passaram pelo “lugar dos espíritos silenciados”. Por exemplo, a maioria dos monstros comuns na Silent Hill da Neblina são manifestações primárias das fobias da Alessa, que é uma das influências mais fortes a moldar a aparência e o poder da cidade. Mas, apesar disso, alguns detalhes na aparência de alguns monstros refletem o contexto no qual cada visitante é atraído para a cidade. Não é novidade para ninguém, por exemplo, que o James do SH2 chega à cidade com sérios problemas de natureza sexual, e o jogo como um todo gira em torno desse tema. Muitas das criaturas que se manifestam, mesmo na Neblina, são afetadas por essa percepção sexualizada de James, e isso pode ser visto na comparação entre os decotes das enfermeiras do SH1 e do SH2. E é ao adentrar o suficiente no mundo da Neblina que você chega ao ponto em que as coisas ficam REALMENTE pesadas: O “Outro mundo”.

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O “Outro Mundo” varia muito mais de visitante para visitante da cidade. E isso é porque cada iteração do Outro Mundo transforma a cidade em um pesadelo personalizado, com elementos que se adaptam aos medos, fobias e símbolos que mais representam os traumas passados das pessoas. Silent Hill não apenas te oferece um medo padronizado: Ela constrói uma espiral de destino e sonho para te levar ao centro de seus medos mais íntimos. Através da passagem por esse lugar que é, no fim das contas, você mesmo dissecado e distorcido, a cidade te conduz até seu destino, sua catarse, e a sua transformação através do medo, e da interpretação do medo. Isso por si só já é uma ideia mais do que brilhante, mas há possibilidades infinitas para analisar o que eu começo a chamar dos “três níveis do medo” em Silent Hill.

O primeiro nível é a cidade abandonada. Na minha interpretação, o “Mundo Real” de Silent Hill já é assustador por si só. Se você já andou por ruas desertas, sabe do que estou falando. A meu ver, a ideia da cidade abandonada (emprestada de uma cidade-fantasma real, a cidade de Centralia, West Virginia) já seria um cenário fantástico para um jogo de suspense, por permitir lidar com a loucura do isolamento, a sensação de vigília constante, e os “medos da idade adulta”.

O segundo nível, a neblina, alimenta-se dos medos generalizados. Ela varia pouco de pessoa para pessoa, e apenas sua interpretação ou “ajuste fino” parece adaptar-se a cada indivíduo. Embora isso pudesse ser uma alegoria para o “Inconsciente Coletivo” do Jung, eu penso mais em termos biológicos, e nos termos da formação cultural imediata. Os medos que nós compartilhamos com outras pessoas (generalizados) são, no geral, de base instintiva (medo de predadores, de situações que nos deixem vulneráveis, etc), e sofrem influência clara do background cultural (certas superstições, ou símbolos amplamente associados a conceitos de bem e mal, que não provêm do instinto, mas da cultura). O “Mundo da Neblina” poderia ser interpretado como uma manifestação dos medos generalizados? Se sim, por que manifestações mais fortes do subconsciente de Alessa naquilo que é percebido por todos?

A meu ver, toda obra cultural que é influente o bastante, vai se fixar como parte da formação cultural da geração seguinte. Um exemplo claro é ver que pessoas da minha geração (eu nasci em 1990) reagirem a curiosidades do mundo biológico (ou seja, bichos estranhos ou capazes de fazer coisas estranhas) comparando-os a Pokémons. Também pode ser visto com a associação imediata de surf-rock a cenas de crime estilo Pulp Fiction, ou uma progressão de notas similar à música-tema de Superman em cenas que parodiem o estilo de super heróis. Você pode ver a fixação de elementos culturais facilmente em paródias, ou mesmo na incapacidade de dissociar dois conceitos, em associações cuja raiz é facilmente detectável. Tente pensar em algo estranho / nefasto / oculto vindo de outo plano de existência. Pense nisso por um instante.

 

Pensou em tentáculos? Hum… curioso!

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Pois bem… Elementos culturais que venham de mentes individuais podem ressonar e tornar-se os medos mais “globais” dentro de um grupo de pessoas. Podemos pensar em Alessa Gillespie como uma figura central importante no momento histórico que vivenciamos em SH1-4, por exemplo. Talvez ela tenha moldado, com seus medos, aquilo que é percebido por todos na cidade de Silent Hill como a hostilidade da cidade. Mas para chegar ao centro daquilo que atraiu um personagem para a cidade, apenas isso não basta: Os medos mais primários têm de ser trazidos à tona. Essa ideia está muito mais presente no Silent Hill 2, e nos quartos do SH4. (Na real, no Silent Hill 1 e no 3, lidamos com o Otherworld mais íntimo da Alessa, uma vez que a história desses jogos gira em torno do que aconteceu a ela)

Em SH2, tudo vibra com energia sexual quando estamos no “Otherworld” de James ou na proximidade de Angela. Enquanto o mundo de James é mais depressivo e frio, com um forte simbolismo envolvendo água e a libido reprimida e doentia do personagem, Angela vivencia (e compartilha) um inferno mais quente, e com mais referências ao abuso sofrido na infância. Essa característica “adaptável” do “Outro Mundo” é ainda mais clara ao vivenciar o inferno de Eddie, que reflete o bullying sofrido pelo personagem na infância, a sensação de isolamento e frio, e a perturbação e o prazer de lutar contra os monstros. Esse terceiro nível do medo é o medo pessoal, e ele parece percolar para dentro do pesadelo das pessoas mais próximas. Talvez seja através desse processo que se molda também o “Mundo da Neblina”, mas isso é pura especulação da minha parte.

De qualquer maneira, Silent Hill lida, a meu ver, com o medo real, o medo simbólico e compartilhado, e o medo pessoal e íntimo, sendo ainda uma possível alegoria a como nós trocamos nossos medos uns com os outros, e talvez outras referências culturais também.

Se minhas interpretações estão ou não corretas? Bem, nunca vamos saber ao certo. Mas é pensando sobre essas manifestações do medo que eu compus minha própria narrativa de horror, partindo do medo real para o simbólico.

E você, o que pensa disso? Welcome to Silent Hill!

School of Emotional Engineering: Uma atmosfera de neblina e samples

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Voltando às trilhas sonoras, tenho a declarar que, embora o Labirinto e o Black Sabbath sejam vitais para mim, tanto na vida pessoal e artística quanto no processo de escrita d’A Chave do Monarca Azul, seria injusto consagrá-los como “trilha sonora oficial” do livro. E isso porque o que mais se aproxima de ter me acompanhado obsessivamente durante todo o processo de escrita é o álbum único e homônimo do projeto “School of Emotional Engineering”.

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Com o título derivado do maravilhoso “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, o projeto do compositor australiano Ben Frost evoca paisagens de ficção científica e distopia, misturadas com uma espécie de nostalgia perversa que é capaz de agarrar qualquer ouvido atento. Enquanto no livro o “College of Emotional Engineering” consiste em uma localidade onde são desenvolvidas “histórias hipnopédicas” que reforçam o condicionamento social e a apatia de sentimentos, a ironia do álbum faz exatamente o contrário: Essa é, de fato uma música que evoca tantos sentimentos e emoções quanto possível.

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Desde que ouvi o som do School of Emotional Engineering, comecei a escutar o álbum em loop, como um verdadeiro maníaco. Não é incomum que isso ocorra na minha vida, é claro, e sou especialmente propenso à repetição doentia de um projeto musical quando ele é texturizado, cheio de sons surgindo do nada, e realmente toma diversas escutadas para ser absorvido apropriadamente. SOEE é tudo isso. Misturando dark-jazz, trip-hop, música eletrônica e algumas das atmosferas mais perversas e “invernais” que alguém pode encontrar em um álbum, a sensação de escutar o disco é a de estar imerso em um filme realmente sombrio e misterioso, seguindo um intimista personagem principal enquanto ele anda sem rumo por cenários de completa devastação (estrutural ou psicológica).

Foi nessa atmosfera de histórias intimistas e sem rumo que eu construí meu protagonista anônimo, e foi dos trompetes subliminares e sons de fumaça que eu fiz a voz de seu nêmese, o Arlequim. Eu agradeço a Ben Frost por me dar a mood perfeita para construir o livro. E ao livro, por me dar tantas memórias para associar a escutadas futuras do SOEE.

Ficam os links para duas canções, a monstruosa faixa final “Slicing the Skin Between My Toes”:

e as duas faixas de abertura “To be continued… / Refrain”:

Fica também o conselho de que vocês peguem para ouvir o álbum inteiro.   Ben-Frost-4

Twin Peaks: Do suspense à estranheza

BL

 

 

Como post de estreia do blog, venho falar de uma série cuja influência é imensa para mim, não apenas na criação de “A Chave do Monarca Azul”, mas para a abordagem como um todo de contar uma história. Eu nasci no mesmo ano em que Twin Peaks. Horóscopo chinês à parte, o fato de esse seriado ser tão antigo (1990) e tão brilhantemente realizado já merece crédito. Mas a verdade é que, como muitas coisas em Twin Peaks, há mais coisas sob a superfície.

 

Laura

“Quem matou Laura Palmer?”

 

A premissa do show parece simples: uma menina é encontrada morta, na pacata cidade de Twin Peaks, Washington, um lugar que, para todos os efeitos, nunca tinha presenciado algo tão terrível. Como há uma aparente conexão com outro assassinato, e uma sobrevivente do mesmo ataque de Laura foi encontrada em outro estado, um agente do FBI é destacado para auxiliar a polícia local a encontrar o culpado. E é aí que a mágica acontece.

Falar de Twin Peaks é, indiretamente, falar do cenário atual da televisão. Até o momento de sua existência, não havia muita coisa na televisão norte-americana que fugisse ao formato “Soap Opera”, algo similar à novela das 8. Twin Peaks surge com uma trama pesada, envolvendo assassinato, tráfico, prostituição, corrupção de autoridades, sonhos proféticos, budismo e “damn good coffee!” Ao contrário do que se poderia imaginar, porém, a ruptura do formato de novela apenas impulsionou a popularidade de Twin Peaks entre os norte-americanos: As pessoas conversavam sobre o episódio anterior às segundas-feiras no trabalho, havia camisetas com a frase “Who Killed Laura Palmer?” ou com o rosto da “Senhora do Tronco” (um dos personagens mais incríveis!). Os criadores David Lynch e Mark Frost deram ao público norte-americano de televisão algo novo, um mistério que realmente as agarrou. E isso abriu espaço para muita coisa!

 

LogLady

 

Se dentre as muitas pessoas mortas como dano-colateral pelo Exterminador do Futuro estivesse o David Lynch, não teríamos Arquivo X, Lost, True Detective ou mesmo Bates Motel, de certa forma. Silent Hill? Acho difícil… A estranheza de Twin Peaks abriu um precedente na mídia. Bizarrices que só se via nos episódios curtos de “Além da Imaginação” agora compunham toda uma trama, com dimensões paralelas, possessões por entidades e simbolismo envolvendo creme de milho (!!!). Mesmo sendo claramente datada (afinal de contas, a série ainda é um meio de transição), ela pode facilmente ser assistida hoje em dia e evocar a mesma sensação de mistério e encantamento que causou há 25 anos. Em poucas séries você pode ter, no mesmo episódio, comédia surreal, trilha sonora noir, diálogo filosófico, medo, avanços na investigação e aprofundamento em personagens tão cativantes. E só em Twin Peaks você tem a própria cidade como uma espécie de “personagem silencioso”, marcando sua presença com o apelo visual dos locais e com sua cativante e assustadora natureza.

 

Tremond

 

Acho que não posso falar muito mais sem correr o risco de spoilers, ou de um post desnecessariamente longo. Recomendo que assistam a série (infelizmente ela saiu do NetFlix, mas pode ser “conseguida” online e comprada em DVD ou Blu-Ray). Aviso, porém, que a série foi cancelada após a segunda temporada, e um filme excelente foi feito para tentar chamar a terceira temporada, mas não chegou a dar certo. Uma terceira temporada, porém, está sendo produzida pelo canal ShowTime, para estrear exatos 25 anos depois do fim da série, em 2016!

 

Esperemos com vontade! E que “O Fogo Ande Com Você”